Rodrigo “Galego” Leonardo

Entrevista com o Técnico de Basquete, Rodrigo Leonardo, o “Galego”, que agora dirige a equipe do Joaçaba/Ablujhe Basquete de Santa Catarina e iniciou sua carreira em Brasília.
Rodrigo dirigindo a equipe atual em Joaçaba SC.
Rodrigo, você hoje, depois de ter feito parte de vários projetos vitoriosos dentro do basquete de Brasília como Vizinhança, APCEF, Lance Livre, CEUB e GG12 (base), decidiu alçar vôos fora do quadrado, especificamente em SC. O que te levou para o sul do país?
Tentando te responder de forma resumida, eu diria que saí porque eu sonho em ser técnico de basquete em alto nível e minhas oportunidades em Brasília se encerraram por agora. Ano que vem entro na minha vigésima temporada como técnico e sempre trabalhei pensando em ter uma oportunidade na cidade em que cresci e que aprendi tudo sobre o basquete. Falando friamente, não aconteceu, paciência. No segundo semestre de 2015, recebi uma ligação do Rodrigo Carlos (assistente do Neto), eles tinham visto meu trabalho na Liga Ouro, me parabenizaram pelo feito, disseram que talvez abrisse uma vaga na base do Flamengo e que eu poderia também ajudar com meus conhecimentos agregando no trabalho do adulto. Aquilo foi um “divisor de águas” pra mim. A confiança dos dois no meu trabalho me fez repensar muita coisa e começar a confiar mais em mim. Naquele dia eu percebi que eu não deveria mais esperar uma oportunidade, deveria correr atrás e, desde então, comecei a buscar espaço até conseguir chegar aqui onde estou, recomeçando minha carreira, tentando fazer bons trabalhos, sendo visto, agora por outros olhos, atrás de realizar meu sonho de ser técnico de basquete. 
 
Para os amigos que ainda não o conhecem ou não sabem da sua história, pode falar brevemente sobre sua formação como treinador de basquete e quem ou o que você considera como suas principais influencias pra seguir nessa profissão.
Pratiquei basquete dos 10 aos 18 anos. Como sempre fui um jogador bem limitado, treinei bastante, participei de competições, mas ficava muito no banco, o que foi me ajudando a perceber o jogo visto de uma outra forma. E como sempre quis ser técnico, muito por influência do meu tio (Antônio Lopes, atualmente coordenador de futebol do Botafogo), já no meu último ano de juvenil, resolvi me despedir da equipe que eu treinava e fui estudar Educação Física na UnB. Assim que entrei na UnB, recebi o convite pra dirigir uma equipe universitária e daí em diante não parei mais. Passei pelas equipes universitárias da UnB, Vizinhança, APCEF, Lance-Livre, Botafogo-DF, CEUB Universitário, seleções de base do DF e GG12. Como dirigi base minha vida toda em paralelo a dirigir equipes adultas, muita gente tinha preconceito e achava que quem dirige base, não tem a “pegada” para dirigir adulto. Então, a partir de 2014, optei por uma ação estratégica de focar em trabalhar apenas com a categoria adulto e tentar sucesso nela. E aqui estou eu, ainda com “fôlego” para ir atrás do meu sonho, trabalhando atualmente na equipe da ABLUJHE no meio-oeste de Santa Catarina.
 
Tenho diversas referências. Em Brasília sofro uma influência forte de três técnicos de quem tive o prazer de ser atleta e de quem sou, até hoje, amigo pessoal. Estou falando dos Professores Carlos Macedo, Ronaldo Pacheco e Laurindo Miura. Além deles, Michael Swioklo é uma grande referência pra mim. Trabalhamos juntos por diversas vezes e é um cara com quem eu aprendo todo dia, em cada conversa, e que simplesmente acredito ser um dos melhores técnicos do Brasil. Falando em nível nacional, eu gosto de observar diversos técnicos, como a dupla José Neto e Rodrigo Carlos(Flamengo), Gustavinho(Paulistano), César Guidetti (Pinheiros) e gosto muito da dupla de irmãos Léo e Pablo Costa (Macaé). No exterior também são vários, mas gosto de citar a dupla dos Spurs, Gregg Popovich e Ettore Messina e Brad Stevens do Boston Celtics. Acho que estou bem de referências! (risos)
 
Você conseguiu uma façanha incrível, montou um time de garotos universitários da cidade e trilhou o caminho virtuoso vencendo tudo, Braba, Centro Oeste e Super Copa, chegando assim na Liga Ouro do NBB. Como foi esse caminho?
 
Foi um momento muito marcante pra mim, pois foi um trabalho construído com tempo e dedicação de muita gente. Trabalhamos desde  2010 com a montagem do projeto que era aberto à comunidade. Dava treinos em 2010 pra 40 pessoas, todo mundo que passava na rua e queria jogar basquete, eu falava: “pode vir”. Então fomos começando a direcionar o trabalho, trabalhar para atender à comunidade, mas também para disputar jogos e participar de competições. Em 2011 decidimos jogar nossa primeira competição fora do certame universitário. Foi exatamente nesse ano que ganhamos nossa identidade de “CEUB Universitário”, pois o  UniCEUB iria participar com sua equipe adulta e eles acharam bom que criássemos um nome para que não se misturasse com o deles, pois perderíamos muitos jogos e não seria bom pra imagem da instituição. Fomos disputando competições menores, ganhando experiência, nos anos seguintes, alguns jogadores do sub-22 foram sendo dispensados do Brasília, por terem estourado a idade e fui convencendo eles a treinar em uma outra pegada, mais “light”, três vezes na semana, pra não perderem o contato totalmente com a modalidade. Em 2013, disputamos nosso primeiro campeonato do DF (Braba) e, depois de um longo caminho de amadurecimento da equipe e de vitórias apertadas(a Braba ajudou muito a amadurecer o time) conseguimos vencer o UniCEUB-BRB, que na época era representado pela equipe sub-22, na grande final. Com este título conquistamos também o direito de disputar a Copa Centro-Oeste. Fomos pedir para que nos ajudassem a custear a viagem pra competição e os diretores do UniCEUB nos perguntaram como poderiam nos ajudar para buscarmos o título. Lembro-me que pedimos uma semana pra ir pra casa, planejar tudo: calendário, ações, valores, sondar atletas pra reforçar a equipe, contratar uma comissão técnica pra me ajudar no trabalho e, na semana seguinte, apresentávamos à diretoria quatro cenários de valores. Eles escolheram o segundo de menor valor, mas que já ajudava muito a podermos mudar a estrutura. Passamos a treinar todo dia um período, conseguimos trazer 3 reforços pra equipe e tive a ajuda do Juca Moreno(preparador físico) e do Michael Swioklo(assistente técnico) que vieram por um preço muito abaixo do mercado. Assim, disputamos e vencemos a Centro-Oeste e em seguida também tivemos a felicidade de conquistar a Super Copa Brasil. Foi muito emocionante poder conquistar um título nacional representando o DF. A partir dali, foram meses de negociação com a instituição para conseguirmos participar da Liga Ouro. Fomos atrás de apoiadores e patrocinadores. Além disso, a estrutura precisava alterar drasticamente. Conseguimos fazer parcerias com os cursos do UniCEUB de educação física, fisioterapia e comunicação social para contarmos com estagiários que fizessem parte do nosso trabalho e, assim, fomos conseguindo montar um staff que desse conta não só de colocar uma equipe em quadra mas, também, de propiciar os requisitos básicos para não deixar os atletas em uma situação ruim. Desse modo, disputamos a Liga Ouro, fomos aprendendo como fazer durante a preparação e competição, nossa meta era de chegar aos playoffs e tentarmos surpreender mas, infelizmente, caímos na primeira fase pela diferença de uma vitória. Foi doído, mas foi uma experiência excelente que me “calejou” bastante e sou muito grato a todos que ajudaram nessa trajetória a realizar esse trabalho.
CEUB, equipe que disputou a Liga Ouro do NBB.

Ficou em 4˚ lugar jogando duro com todas as equipes, vencendo e perdendo vários jogos por uma cesta de vantagem, mostrando que no basquete detalhe ganha jogo. O projeto acabou não continuando por causa dos resultados?  

Até hoje não se sabe ao certo porque acabou. Nunca nos foi dito diretamente. Quando fomos eliminados da Liga Ouro, levamos um mega relatório com todos os gastos, passando por contratações dos atletas, gastos com material pra montar a estrutura, sediar os jogos e custear viagens, parcerias de estágios e tudo mais. Tudo de forma bem esmiuçada. E o retorno que tivemos foi um pedido para que resumisse tudo em tópicos, pois tinha muita informação. Após isso, não falaram mais com a gente. Um mês após o fim da Liga Ouro, haveria uma clínica de reciclagem com todos os técnicos das equipes do NBB e da Liga Ouro. Eu estava empolgado em participar dessa oportunidade, mas, dias depois, fiquei sabendo por meio da LNB que eu não poderia mais participar, pois o UniCEUB havia retirado a franquia e não fazíamos mais parte dos clubes associados à Liga Nacional de Basquete. Ali eu percebi que não havia mais interesse algum no desenvolvimento do trabalho. Mesmo assim, sempre fui muito grato aos diretores que me possibilitaram participar de uma competição desse nível. Tanto Dr. Geraldo quanto Dr. João foram os responsáveis pela nossa participação na Liga Ouro, e sou grato por tudo que fizeram pela nossa equipe. Mas é claro, o resultado certamente atrapalhou a continuidade. A minha tranquilidade é de que quando fechamos o orçamento pra Liga Ouro (e o orçamento que nos deram era bem abaixo do que o menor dos quatro cenários de gastos que oferecemos), eu deixei claro que o valor era muito raso e que teríamos dificuldades de um resultado expressivo nesse nível com tão pouco investimento e tempo para trabalhar e amadurecer os atletas. Os diretores estavam cientes e diziam que queriam participar para ver como era a Liga Ouro e para valorizar e dar um retorno por tudo que havíamos feito nos outros anos. Isso me deu tranquilidade para seguir firme e trabalhar como acreditava. Posso dizer então que foi missão cumprida.  
Na final da primeira Braba onde enfrentou um de seus mentores na final, Ronaldo Pacheco.
Acha que essa cultura extremista de “ou é o melhor ou é o pior” atrapalha o desenvolvimento do esporte em Brasília e também no Brasil? Como você enxerga isso?

Acredito que no esporte de ponta e de rendimento quem quer trabalhar precisa estar preparado para ser cobrado por resultados. Não tem pra onde correr. Existem muitas coisas ruins na nossa cultura esportiva, como por exemplo essa citada de, a todo momento, se elencar quem é melhor e pior, “os mocinhos e os vilões” da vez. Mas te digo que o que me incomoda mais é que, por vezes, as equipes não projetam nem planejam um desenvolvimento da base e ficam sempre investindo em trazer soluções imediatas, contratando jogadores de fora. Há um cálculo básico e rápido de que com 10% do que se investe numa equipe adulta você consegue investir e montar um trabalho de base. Então, na minha opinião, é lamentável observar trabalhos de equipes de ponta que ficam por 10 anos investindo em atletas mais velhos, contratando, demitindo e contratando outros mais, e não conseguem desenvolver um projeto que possa aproveitar garotos da base, nem que seja pra compor o grupo e você poder economizar contratando menos jogadores para o plantel. Em tempos de discurso sobre autossustentabilidade no mundo, no esporte também poderíamos dar nosso exemplo de sustentabilidade. Investir em projetos esportivos imediatistas como citei nesse modelo, pra mim, é uma visão 
danosa e tão ruim quanto ficar trabalhando em cima do extremismo que você citou de melhor e pior. 
 
Nesse tempo todo trabalhando no DF, como você enxerga o crescimento do basquete na região. Na sua opinião, o que falta?
 
Pra falarmos do basquete de Brasília, precisamos dividir em duas frentes: as categorias de base e o basquete adulto. Digo isso com tranquilidade, pois são duas frentes que não dialogam. Falando sobre o basquete adulto, você não vê atletas de Brasília chegando no alto nível dentro da própria cidade. Apesar de termos tido uma equipe profissional, disputando liga nacional por quase quinze anos em Brasília, eu sempre gosto de lembrar que o único que subiu da categoria de base para compor, de maneira efetiva, a equipe adulta de Brasília, foi o Ronald. E, cá entre nós, o Ronald jogaria em qualquer lugar do Brasil subindo das categorias de base. Portanto, o basquete adulto em Brasília ficou famoso nacionalmente por não aproveitar os atletas da base. No máximo para alguns treinos, mas nunca para jogos com alguma efetividade. Algumas gerações de Brasília tiveram grandes passagens na LDB, vencendo equipes importantes com atletas que hoje em dia são realidade no NBB, como por exemplo: Gui Deodato, Léo Meindl, Lucas Mariano, Arthur Pecos, dentre outros. Mas, para variar, nunca foram aproveitados. Essa filosofia gerou pra Brasília títulos nacionais (uma Liga Nacional, três NBB´s e três Ligas Sulamericanas), mas, recentemente, a equipe agoniza com anos sem títulos nacionais, apesar de sempre estar no top 4 de investimento pra temporada no Brasil. Tudo veio a piorar com a crise financeira e má gestão de recursos,  não conseguindo dar continuidade ao projeto. Acredito que, para os que mandaram no projeto, tenha sido proveitoso, pois entraram na história do Basquete da cidade com títulos memoráveis e que foram marcantes para todo nós do DF. Mas ao mesmo tempo foram capazes de não deixar legado intencional algum, estrutura nenhuma e ter desanimado umas três gerações de atletas da cidade com a modalidade(os que sobreviveram saíram a tempo). Sei que Brasília é um polo de Basquete e que a cidade, com tempo e trabalho, em um futuro próximo, dará a volta por cima (torço para isso). Só espero que com outras pessoas à frente.

Por fim, nas categorias de base, temos um case de sucesso com a Liga de Basquetebol de Brasilia (Liga Criança) que já possui vinte anos de existência e resiste bravamente fomentando o basquete nas categorias iniciais no DF de maneira gratuita. Mesmo assim, ainda vejo algumas coisas que me incomodam na base, não só no DF mas, também, pelo Brasil afora. Particularmente, me incomoda muito ver técnicos, pais, diretores e envolvidos com as equipes de base comemorando em excesso títulos sub-12, sub-13 e por aí vai. Às vezes vejo umas postagens de professores exaltando suas equipes falando de vitórias de 110 x 30, por exemplo. Isso pra mim é uma denuncia de como a modalidade ainda carece de um melhor tratamento. Não adianta vencer campeonatos nessa época para se sobrepor à outras equipes que sequer conseguem dar o passo inicial. Acho que nas categorias iniciais devíamos nos preocupar com detalhes como: meus atletas fazem bandeja pelos dois lados com boa qualidade? Meus atletas passam bem a bola, com as duas mãos e com uma das mãos, também com qualidade? Como lidam com aspectos defensivos? Como se comunicam? Isso pra mim deveria ser o início de toda nossa preocupação, gerar um grande espaço de aprendizagem para equipe campeã e para a última colocada também, para aí, lá na frente, podermos colher com mais jogadores capacitados, entendendo que seus adversários lhe farão melhores, e não que são inimigos a serem aniquilados para mostrar uma provável força. Acredito que o que falta ainda é unirmos forças pra desenvolver o basquete de Brasília como um todo, e não apenas no meu clube em detrimento do outro.

Em ação em Santa Catarina.
 
Após um ano trabalhando em Santa Catarina, que diferença você vê no basquete do DF e de SC?
 
São muitas. Temos um país de extensão continental, e isso faz com que regiões diferentes tenham também drásticas diferenças culturais. Em SC temos uma Federação que considero “a mais organizada do Brasil”. Eles estão realmente comprometidos com um planejamento de tornar SC o grande formador de atletas em um futuro próximo no país. Apesar disso, eu senti muita diferença nos valores, não apenas para custear jogos, mas para custear tudo o que cerca. No DF os ginásios são próximos, tudo mais simples de se executar, em SC temos de viajar 6 ou 7 horas, por vezes, para fazer um jogo, jantar, e já voltar por mais 6 ou 7 horas. É extremamente desgastante, e eles fazem tudo aqui com muita determinação e disciplina. Senti também muita diferença no estilo de jogo do sul. O jogo é muito mais pegado fisicamente, tive de readaptar minha maneira de enxergar basquete.  É um jogo mais duro e isso me fez repensar e aprender muita coisa. Não acho que nenhum seja melhor que o outro, mas me fez pensar sobre muita coisa no DF que eu achava inviável fazer e que hoje penso que poderia talvez ter feito mais. Por isso, admiro hoje em dia, ainda mais, o que o Chico fez pela FBDF nestes últimos anos. Ele foi corajoso em inovar, tentar aproximar as equipes, modificar a forma das competições, gerar mais jogos e o basquete do DF deve muito a ele. 
 
Na empreitada CEUB Basquete na Liga Ouro, o co-irmão de patrocinador, Brasília virou uma espécie de rival? Isso atrapalhou ou ajudou no fim das contas?
 
Como disse anteriormente, a Liga Ouro foi pra mim uma grande experiência de aprendizado, de ver que dá pra chegar lá com trabalho, mas também como um momento em que questionei muito minha carreira. Hoje, o que consigo entender disso tudo é que essa experiência está na melhor das lembranças, mas está no passado. Não acredito que valha muito trazer à tona situações que possam criar algum tipo de intriga. O que posso te dizer é que tinha muita gente da equipe que disputava o NBB que torcia pela gente. Muito funcionário e muito atleta da equipe do Brasília que nos visitou nos treinamentos para dar uma força. Recebi mensagens de atletas que já haviam feito parte da equipe de Brasília e que, atualmente, estavam jogando por outra cidade, enviando mensagens de incentivo, diziam estar acompanhando nossos jogos pela internet de suas cidades e torcendo pelo nosso sucesso. Isso era algo fenomenal que me motivou muito a querer que as coisas dessem certo naquela competição. Eu sou muito grato a essas pessoas pelo carinho que foi transmitido na época. Sobre a rivalidade que possa ter sido criada, acho que não vale a pena falar nisso. Algumas pessoas não se sentiam confortáveis com a nossa existência e nos encaravam como uma ameaça (o que não era nossa intenção). Eu sempre tentei interpretar isso de maneira positiva, de maneira que, se estávamos incomodando, era porque, talvez, estivéssemos fazendo um bom trabalho. E isso também foi uma fonte de motivação. Cada projeto seguiu seu caminho e teve seu futuro escrito com o passar do tempo.  
“Galego” com o grande mestre Miúra.
 
Fale mais sobre o projeto em Joaçaba SC. Objetivo é o NBB?
 
Trabalho em uma equipe que é uma associação de Basquete de três municípios (Luzerna, Joaçaba, Herval d´Oeste), essa associação estava parada fazia alguns anos e foi reativada ano passado, com a vinda de alguns atletas pra cá. Dentro da associação há uma parceria com a universidade daqui (UNOESC) que oferece bolsa de estudos para os atletas. A Associação também conta com verba do Fundo Municipal de Esportes e, além disso, tem o patrocínio de algumas empresas e apoios de diversas outras. Tudo isso para que a associação possa oferecer aos atletas, além das bolsas de estudo, moradia, alimentação, uma ajuda de custo, e arcar com as despesas de viagens e participação das competições. A associação tem, ainda, a obrigação de organizar as categorias sub-12, sub-13, sub-15 e sub-17 para poder participar do campeonato adulto. A Federação Catarinense também oferece uma verba para as equipes que participam dessas competições, e isso também contabiliza como mais um auxílio para que consigamos dar conta de todos os gastos no ano. Logo, é tudo contado na ponta do lápis para que se possa oferecer uma boa estrutura aos atletas e, neste ano, para mim, que vim compor a comissão técnica. Estamos visitando agora, no fim do ano, as empresas, para tentarmos a renovação dos contratos de patrocínio e apoio. Temos recebido um feedback positivo das empresas, sinal de que gostaram do que fizemos neste ano e a meta é irmos avançando aos poucos, amadurecendo o projeto, trazendo mais pessoas para nos ajudarem e, assim, quem sabe um dia, chegarmos na Liga Ouro. No meio do ano entrei em contato com a Liga Nacional de Basquete e falei sobre nosso projeto aqui. Disse que temos meta de chegar na Liga Ouro talvez em 2019 ou 2020 e, desde então, eles estão nos orientando em como trabalhar para chegarmos lá. O próximo passo é nos aproximarmos da Federação Catarinense, apresentarmos um projeto sólido, para também contar com a ajuda deles para chegarmos um dia na Liga Ouro. Neste ano de 2017, a Federação daqui ajudou com recursos financeiros as equipes de Joinville, Brusque e Blumenau na Liga Ouro. No campeonato catarinense, ficamos atrás apenas destas três equipes. Ou seja, precisamos continuar crescendo no cenário catarinense para começarmos a ganhar mais respeito, legitimidade e apoio para um dia atingirmos nosso objetivo de termos um projeto com a cara da cidade em cenário nacional. Mas certamente isso leva tempo e muito trabalho diário.
 
Aqui a principal pauta sobre basquete nos grandes veículos tem sido o fim do tricampeão do NBB Brasília, como enxerga essa perda para o basquete da cidade?
 
Exatamente como você citou. Uma perda. E das grandes.  A cidade acostumou-se a consumir basquete, a prestigiar a equipe no ginásio. Brasília sempre teve um bom público e uma torcida apaixonada. Além disso, como sempre trabalhei com base, pude ver o crescimento que teve com os praticantes tentando se espelhar nos atletas e buscando iniciar sua vida esportiva com uma modalidade que é, de fato, apaixonante. Mas, como disse antes, vimos um produto chegar no seu auge com títulos e dinheiro para investir, e fomos assistindo diariamente a ausência de um planejamento sólido e consistente para os próximos anos. Ao invés disso, passamos a viver nestes últimos anos numa “monarquia”, onde o “rei existente” comandou, ao jeito dele, o basquete da cidade. Ele trouxe muitas alegrias para o “seu povo” no início (títulos), mas, numa atitude egoísta, se fechou no seu mundinho de vaidade e conquistas e não valorizou seu próprio povo, discursando sempre nos bastidores (e pra quem conhece o “reinado” de dentro, sabe que ele prega isso) que não assiste jogo da base, que não precisa disso, porque jogador de Brasília que for bom, já vai pro adulto direto, então ele não precisa observar ninguém. Não fez questão de conectar o trabalho da base com o adulto, apesar de, nos jornais, falar que havia deixado de ser treinador pra cuidar do “projeto” e, simplesmente, brincou no quesito organização e planejamento. Fez como quis, no “feeling”, e no mundo de hoje, só sensibilidade e experiência não sustentam projeto algum. Recentemente, deu uma entrevista dizendo que espera voltar com um time na Liga Ouro porque no “projeto” dele, “têm pessoas que já mostraram resultados expressivos e que isso é fundamental”. E aí eu pergunto? Até quando vamos viver de dirigentes que acreditam que o que vale é o resultado, desconsiderando os processos? Esse tempo está passando! Pra mim, o fim da franquia Brasília (sendo temporária ou não) era um acontecimento já previsto diante dos gastos desenfreados e sem nenhum planejamento efetivo nos últimos anos. Ninguém mais quer apoiar projetos assim, ninguém quer apoiar projetos desenhados na “mesa do bar”. Acredito que Brasília vai sim dar a volta por cima e que levará seu tempo, mas que quando ressurgir, torço que seja por meio de pessoas mais sérias, mais competentes e mais compromissadas em fazer algo que fique para a cidade e não apenas para os proprietários do time, ou que pelo menos não fique na mão de um “rei vaidoso”.    
Bi campeão da Braba.
 

Temos hoje na cidade a possibilidade de ter mais de uma equipe jogando a Liga Ouro do NBB. Você acredita que tem espaço para múltiplas equipes na Liga Ouro e no NBB? Temos material humano e recursos para tal?

Acredito que, atualmente, seja difícil haver recursos financeiros e, certamente, não temos material humano para três equipes. Mas, sinceramente, torço para que eu esteja errado e que as equipes consigam se inscrever oficialmente. Acho que só o fato de aparecerem três frentes para participar da Liga Ouro já é um sinal que existe vida pós “Brasília NBB”. Novas frentes, novas pessoas, novas ideias. De alguma forma acho saudável, pois assim se abre mais mercado de trabalho para atletas, técnicos e profissionais envolvidos. Sendo em Brasília, então, com um público que gosta de consumir a modalidade, talvez seja saudável, também, pela possibilidade de vermos diferentes formas de fazer basquete. Assim, o público teria a chance de ficar mais crítico ao que percebe de gestão esportiva e acredito que isso poderia sim ajudar no ressurgimento do basquete do DF no cenário nacional.   

Você ainda se vê trabalhando um dia em Brasília, novamente?
Eu irei trabalhar onde me derem a chance de realizar meu sonho de ser técnico de basquete. Acredito que eu tenha ainda de percorrer um bom caminho para legitimar meu nome no mercado e abrir espaço. E é disso que eu estou atrás. Fizemos um bom trabalho aqui em Joaçaba esse ano e espero que isso possa valorizar meu nome para o futuro da minha profissão. Se um dia tiver uma oportunidade para voltar a Brasília, eu torço que seja pra trabalhar com basquete como desejo.